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Aos pseudos marxistas mas que na verdade são weberianos, nada contra, mas que nunca reneguem o que escreveram um dia, pois como disse há muito tempo na FFLCH-USP, lá pelos idos dos anos 80, meu grande mestre e guru, Florestan Fernandes:
" Eu tive um brilhante e inteligentíssimo aluno de mestrado mas não sou responsável por o que os meus discípulos fazem ou muito menos escrevem.
Tenham todos um ótimo dia!
Habermas e a teoria
do agir comunicacional
Habermas, filósofo
alemão da Escola Crítica de Frankfurt, nascido em 1929, entende a racionalidade de
forma holística: recusa separá-la em dois continentes, o formal e
o substancial. Nesse sentido, critica Max Weber.
«O potencial racional
comunicativo é simultaneamente desenvolvido e alterado no
decorrer da modernização capitalista. »
«A simultaneidade e a
interdependência paradoxais dos dois processos só é possível quando se
vencer a falsa alternativa que Max Weber estabeleceu entre
racionalidade substancial e formal. Parte-se aqui do princípio de que o
desencantamento (Entzauberung) de imagens religiosas e metafísicas do mundo da
racionalidade juntamente com os conteúdos das tradições, rouba todas as
conotações de conteúdo e assim também todas as forças para, além da organização
teleologicamente racional dos meios, poder ainda exercer uma influência
estruturante no mundo da vida. Em oposição a isto gostaria de insistir em que a
razão comunicacional, apesar do seu carácter puramente processual,
aliviado de todas as hipotecas religiosas e metafísicas, está directamente
implicada no processo de vida social e que os actos de compreensão tomam conta
dos actos de um mecanismo coordenador da acção. O tecido de acções
comunicativas alimenta-se de recursos do mundo da vida e é, ao mesmo
tempo, o médium através do qual se reproduzem as formas de vida
concretas.» (Jürgen Habermas, O Discurso Filosófico da
Modernidade, Publicações Dom Quixote, pag 292; o negrito é posto por nós).
Habermas sublinha
igualmente o carácter circular do agir comunicacional:
«Na teoria do agir
comunicacional o processo circular, que encerra o mundo da vida e a
praxis comunicativa quotidiana, ocupa o lugar de mediador que Marx e o marxismo
ocidental tinham reservado à praxis social.» (Habermas, ibid, pag
293; o destaque a negrito é nosso).
E sustenta que a
razão comunicacional não elimina o erro mas partilha-o, socializa-o, do mesmo
modo que partilha e socializa a verdade rectificadora.
«A razão
comunicacional faz-se valer na força de coesão dacompreensão
intersubjectiva e do reconhecimento recíproco. No seio deste universo não
é possível separar o irracional do racional do mesmo modo que, em Parménides,
é separado o não-saber daquele saber que domina, como simplesmente afirmativo,
sobre o que é o nada. Na sequência de Jakob Böhme e de Isaac Luria, Schelling
afirma com razão que o erro, o crime e a ilusão não são
irracionais mas simmanifestações da razão às avessas.» (Habermas,
ibid, pag 299; o negrito é nosso).
A noção de praxis é
reinterpretada por Habermas. Muito mais do que um agir instrumental, a
praxis é um agir comunicacional que produz saber que permite
transformar o mundo.
«Quando se reformula
o sentido de praxis no sentido de agir comunicacional com o auxílio deste
conceito de língua, as marcas universais da prática não se limitam só ao
legein e teukein, isto é, às condições (que precisam de interpretação) para
o contacto com uma natureza que se encontra no circuito de funções do agir
instrumental. A praxis opera então muito mais à luz da razão comunicacional que
impõe aos participantes na interacção uma orientação para as exigências de
validação tornando assim possível uma acumulação de saber quetransforma o
mundo.» (Habermas, ibid, pag 307).
Embora recolhendo o
contributo de Marx, Habermas diverge deste no conceito de praxis social.
Entende esta não como actividade produtiva material mas como a interacção
circular entre o mundo da vida,dividido em cultura, sociedade e
pessoa, e o agir comunicacional
«Nem mesmo Marx
escapou ao pensamento da totalidade de Hegel. Isto altera-se se a
praxis social não for mais pensada socialmente como processo de trabalho.»
«Com os conceitos
que se complementam reciprocamente do agir comunicacional e do mundo da
vida é introduzida uma diferença entre determinações que-
diferentemente da diferença entre trabalho e natureza - não
reaparecem como momentos numa unidade superior. É certo que a reprodução do
mundo da vida se nutre de contribuições do agir comunicacional, enquanto que
este depende por sua vez do mundo da vida. Este processo circular não deve
representar-se segundo o modelo da autocriação como uma produção a partir dos
seus próprios produtos, nem mesmo associado à auto-realização. » (Habermas,
ibid, pag 314).